Negócio quer reduzir déficit habitacional em Alagoas com reformas mais acessíveis

Renova Habitação oferece projetos de arquitetura em até 30 vezes para classes C e D.

No Brasil, cerca de 25 milhões de casas já construídas não proporcionam condições desejadas de habitação. Segundo uma pesquisa desenvolvida pela Fundação João Pinheiro (FJP), em 2019, Alagoas contava com 13% do total de domicílios permanentes em situação improvisada.

O déficit habitacional do estado, no mesmo ano, foi de 126.594 mil. O estudo foi realizado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Regional, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Por outro lado, uma pesquisa realizada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) e Datafolha, em 2022, mostra que 73% das pessoas economicamente ativas consideram usar, mas nunca contrataram os serviços de um arquiteto e urbanista.

Apenas 10% já utilizaram os serviços de um profissional da área, e 18% dizem nunca ter contratado e nem considera usar. Ao perceber que a especialidade não era acessível para a maioria dos alagoanos, o arquiteto e urbanista Allan Oliveira decidiu criar a Renova Habitação.

Com o objetivo de tornar a arquitetura mais democrática e promover a redução do déficit habitacional, o negócio oferece, desde 2019, alternativas inclusivas de reforma voltadas principalmente para as classes C e D no estado.

A empresa é a primeira do Agreste alagoano voltada para arquitetura social, sendo declaradamente um Negócio de Impacto Social.

Quando ainda estava na faculdade, Allan fez parte de um projeto de extensão no Escritório de Habitação Social MALOCA, em Arapiraca, o que acabou despertando, no então estudante, o interesse por impacto social e habitação.

Ele conta que viu como o trabalho dos arquitetos poderia transformar a vida das pessoas que viviam na informalidade e sob serviços de mão de obra precarizados.

“Ao sair [da faculdade], comecei a pesquisar sobre atuação profissional. Afinal, saímos da universidade praticamente sem rumo. Mas sempre senti o desejo de continuar o que fazia no MALOCA, porque via os resultados e como as pessoas aceitavam bem aquilo. Na minha cabeça, não era possível que um trabalho como aquele servisse apenas para pesquisa e fins acadêmicos. E aí, passei a conhecer diversos negócios do Brasil, como o Programa Vivenda (SP), o Moradigna (SP) e o Arquitetura do Barreto (BA). Vi que era possível”, explica Allan.

O projeto criado por Allan, que foca no trabalho em bairros populares, comunidades e favelas, foi inspirado e atualmente trabalha junto com o Programa Vivenda, de São Paulo.

(Foto: Reprodução/Renova Habitação)
Thayse Karla, Sarah Farias e Allan Oliveira deram continuidade ao trabalho do grupo de extensão da faculdade com o Renova Habitação. (Foto: Reprodução/Renova Habitação).

Ambos visam democratizar a arquitetura, quebrando o paradigma de que este é um serviço apenas para as classes mais ricas, e buscam transformar a realidade de locais em vulnerabilidade por meio de melhorias habitacionais.

“Estamos mostrando que vai além do projeto, ou do ‘desenho’ como chamam. Arquitetura é planejamento, isso significa qualidade na execução, segurança e economia para o morador”, completa o arquiteto. 

Ainda de acordo com o arquiteto e criador do Renova Habitação, a maior parte das reformas e obras em bairros populares são informais devido o estigma de que não vale a pena contratar um profissional de arquitetura ou engenharia.

Para Allan, o projeto busca o caminho inverso do que é direcionado aos próprios profissionais, que saem da universidade para atender o mercado de classes mais altas.

“Ao invés de seguir o fluxo da formação acadêmica do Brasil, a gente tá partindo para os bairros populares, para as pessoas que mais precisam, que querem uma transformação, e que não é preciso de luxo. O luxo maior é você ter a sua casa reformada do jeito que você quer, oferecer um serviço que tire toda a inadequação. Entendemos que habitar não é só o morar, estar entre quatro paredes e um teto. A ideia é que as pessoas possam ter qualidade de vida e entender a casa como algo fundamental para o seu bem-estar. Um lar seguro, digno, confortável e acima de tudo, saudável”, destaca.

Como funciona e quem pode usar os serviços?

A startup trabalha com foco em kits de reforma, separados por espaços da residência para executar a obra, como kit cozinha, banheiro, fachada, entre outros.

“Essa divisão por kit-reforma proporciona ao morador uma tranquilidade maior ao executar a obra, tanto por questões financeiras (a reforma é pontual e um bom planejamento da nossa parte significa economia), quanto pelo fato que eles não precisam sair da casa para a obra ser feita. Também nos dá uma agilidade no processo de execução”, explica o idealizador do projeto.

De acordo com Allan, o trabalho é todo realizado junto com o cliente, e o pacote de serviços inclui:

  • Orçamento completo da obra;
  • Contratação de profissionais para mão de obra;
  • Parceria com depósitos e materiais de construção da cidade;
  • Todo o acompanhamento, desde a compra do material, demolições e retiradas, entrega e contratações de serviços;
  • Projeto para garantir a eficácia da obra e para que o cliente saiba como vai ficar o resultado da obra. 

As obras podem ser financiadas em até 30 vezes no boleto, e são entregues em, no máximo 30 dias, segundo Allan.

“Até hoje, nunca passamos do prazo. Nossa obra mais longa foi de quinze dias. Os kits reformas são pensados para facilitar também a vida do morador, já que muitos não podem sair de casa para que a reforma seja feita. Enquanto trabalhamos, a vida deles tem que seguir normalmente, então também é uma forma de setorizar a obra e de não atrapalhar a correria do dia a dia”, ressalta.

Antes e depois da reforma com o kit cozinha. (Foto: Reprodução/Renova Habitação).

Os serviços podem ser utilizados por qualquer pessoa, apesar do negócio focar em bairros populares. Para reformar com o Renova, é necessário que a pessoa tenha entre 21 e 80 anos, possua imóvel próprio e renda mínima de R$ 937 mensais.

Ainda segundo Allan, além de facilitar as obras para a população de baixa renda, o programa também atua com a utilização de mão de obra das próprias comunidades nos serviços realizados pela empresa.

“Quando a gente para pra fazer uma obra com pedreiros e equipe nova, a gente sempre os capacita, ensinando a ler planta e a fazer como deve ser feito, da forma correta. Isso é muito importante, porque essas pessoas vão sair de uma obra nossa mais preparadas para encarar um trabalho com uma grande construtora, por exemplo”, destaca o arquiteto.

Modelo de negócio

O Renova Habitação é considerado um “negócio de causa”, nomenclatura criada pelo Programa Vivenda para todos os negócios que são apoiados pela plataforma.

Assim, o negócio possui um modelo B2C, que lida diretamente com o cliente e realiza todo o processo na plataforma, e B2B, através do Vivenda, que estabelece relações com outras empresas que subsidiam obras para famílias mais carentes.

Em junho deste ano, o Renova teve a oportunidade de realizar uma obra subsidiada em parceria com a Associação Pestalozzi de Arapiraca, mediando a relação com o Vivenda e empresas parceiras.

De acordo com Allan Oliveira, todo o lucro do Renova Habitação, vindo das obras realizadas, é reinvestido no negócio.

Renova Habitação realizou reforma em parceria com a Associação Pestalozzi de Arapiraca. Vídeo: Reprodução/Renova Habitação.

O arquiteto destaca a importância do networking realizado a partir da parceria com o Programa Vivenda.

“Em 2021, fechamos essa parceria, somos o Vivenda em Alagoas, e isso é muito importante porque dá uma credibilidade, um suporte maior que a gente tem. São muitas pessoas colaborando para que a gente possa conseguir realizar os nossos serviços, muitas pessoas compartilhando experiências, outros negócios do Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Ceará. É muito importante isso, e eu acho que é um grande estímulo para que a gente possa trabalhar mais, para que a gente possa alcançar mais comunidades, mais bairros, mais famílias”.

Allan acrescenta que a parceria foi o que permitiu ao Renova ofertar acessibilidade financeira aos clientes, como o parcelamento do pagamento da obra em até 30 vezes no boleto.

“Imagine uma pessoa que recebe um salário e meio, ou um salário-mínimo. Em que momento da vida ela vai conseguir fazer um planejamento e em quanto tempo ela vai conseguir fazer esse planejamento, para fazer uma obra dentro de 7 dias, de uma cozinha ou de um banheiro? A gente sabe que é muito complicado, porque uma obra é um trabalho complexo. Envolve compra de material, contratação de mão de obra, e a gente oferece o pacote completo para essas pessoas, o que dá uma segurança a elas, dá um prazer de poder fazer com que sua casa esteja do jeito que ela sempre sonhou, e com uma contratação de um profissional de arquitetura, que é muito importante”, completa.

Próximos planos

O arquiteto destaca que os planos futuros da Renova Habitação estão voltados para a expansão do negócio para outros setores e cidades de Alagoas, além de fortalecer a educação da população sobre o papel do profissional de arquitetura, com a prioridade de capacitar mais pessoas e dar voz a quem deseja utilizar o serviço.

“A gente precisa entender que a gente está num mercado que não está acostumado com esse tipo de serviço, porque às vezes a gente chega numa determinada comunidade, se apresenta como serviço de reforma, e o pessoal se anima e tudo mais, mas quando a gente diz que é arquiteto, o pessoal corre, de certa forma. Eles desanimam, e já pensam logo que é muito caro. Então, além de ser um projeto de reforma, voltado para a questão da diminuição do déficit habitacional qualitativo, a gente fala sobre o empoderamento, da gente mostrar que é possível e que o serviço do arquiteto não é só para quem tem muito dinheiro” ressalta.

Outros trabalhos realizados pela Renova Habitação estão disponíveis no Instagram da empresa. Também é possível solicitar os serviços por WhatsApp ou agendando uma visita pelo link.


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