Estudo revelou valor ideal para sustentar uma família de quatro pessoas, em março.
No início do mês, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou um cálculo do valor do salário mínimo ideal para suprir as despesas básicas de um trabalhador e sua família no Brasil. A estimativa referente ao mês de março foi de R$ 6.394,76, equivalente a mais de cinco vezes ao atual, que é de R$ 1.212.
Ainda de acordo com o estudo, seria necessária uma média de 119 horas e 11 minutos trabalhadas para que o brasileiro que ganha um salário mínimo atual consiga comprar os produtos da cesta básica.
A Mercatus conversou com o economista Pedro Neves para tirar algumas dúvidas sobre o assunto:
O que o brasileiro poderia fazer com esse salário?
Segundo a Dieese, o valor estimado seria o ideal para sustentar uma família de quatro pessoas no Brasil no mês de março. O salário deveria cobrir gastos com moradia, transporte, alimentação, saúde, educação, vestuário, higiene, lazer e previdência.
Entretanto, de acordo com Pedro Neves, diante do salário ideal, as famílias teriam que começar a implementar um planejamento financeiro, para evitar comprometer a renda com despesas exageradas.
“Hoje [o planejamento financeiro] não é realidade da maioria das famílias brasileiras, porque ganhando um salário mínimo não dá nem para a gente falar num planejamento financeiro. Mas a partir de um salário como esse, ideal, as famílias poderiam começar a definir um planejamento, a começar estruturar melhor a sua vida financeira, para conciliar também com a carga horária de trabalho e não ter que trabalhar exaustivamente para cobrir as despesas básicas”, salienta.
Ainda segundo o economista, cerca de 50% do salário vigente é destinado apenas a gastos com alimentação, comprometendo a renda da família e sendo insuficiente.
Por que não é possível adotar o valor ideal?
Segundo o economista, o salário fica distante da realidade do brasileiro por dois motivos. Um deles é o custo para o setor privado, que para pagar um salário mínimo nesse patamar, teria que fazer demissões.
“Imagine que uma empresa tem um salário base de R$ 2 mil, então significa que um salário de R$ 6 mil corresponde a três funcionários. Para pagar apenas um funcionário, ela teria que diminuir o número total de funcionários ou ser uma empresa que teria dificuldades financeiras. Provavelmente afetaria a saúde financeira da empresa, porque ela estaria aumentando muito os gastos com folha de pagamento”, explica.
Neves completa que boa parte das empresas que mais empregam no Brasil são pequenas ou médias, que possuem dificuldades financeiras grandes e não conseguiriam arcar com um salário desse patamar.
Segundo o economista, o outro motivo seria o setor público, os benefícios sociais e a aposentadoria, que são atrelados ao salário mínimo. “Se você tem um salário mínimo de R$ 6 mil, você aumentaria muito os custos da União, e provavelmente a gente teria um desequilíbrio fiscal nas contas públicas muito grande, levando a problemas sociais muito graves”, completa.
O salário ideal traria algum problema para a economia do país?
Pedro explica que o principal problema seria o aumento no número de desempregados no Brasil, já que seria necessário demitir muitos funcionários para conseguir pagar o salário ideal, além de prejudicar a saúde financeira e a produtividade das empresas.
“A gente teria uma queda do crescimento econômico, e para as contas públicas a gente teria déficits fiscais, levando ao endividamento. No médio e longo prazo, a inflação tende a aumentar quando as contas públicas estão desequilibradas”, explica o economista.
Existe alguma chance dos brasileiros receberem o salário mínimo ideal?
Para Pedro, as chances são muito baixas, já que para um país implementar um salário nesse patamar, seria necessário estar em uma fase de crescimento econoômico muito robusta, com produtividade muito avançada, como no Japão e na Coréia do Sul.
“Produtividade é quando a gente tem uma massa de trabalho que consegue ser muito produtiva e eficiente, a gente consegue produzir muito com os recursos que nós temos. Ela traz crescimento econômico, e aí você consegue aumentar a renda do trabalho também. Não é o caso do Brasil hoje, e é difícil enxergar, em um horizonte aí de 10 anos, a gente chegando nesse nível de economia”, expõe.
Ainda existe possibilidade do salário atual ser o suficiente para os gastos?
De acordo com o economista, para que o poder de compra do salário seja mais decente, seria necessário controlar a inflação através da política monetária, controlando taxas de juros e principalmente as contas públicas.
“Quando as contas públicas estão organizadas, o governo não precisa se endividar, e não havendo endividamento, as chances de ter uma inflação acelerada são menores. Esse é o processo para a gente ter uma inflação controlada como a gente viveu, por exemplo, entre 2015 e 2019. A inflação no Brasil nesse curto espaço de tempo esteve muito baixa, é uma pena que no longo período de tempo o Brasil sempre tem uma tradição de inflação alta”, conclui Pedro.