Desenrola 2.0 pode aquecer a economia de Pernambuco, mas levanta alerta sobre novos endividamento

Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo

Com o objetivo de diminuir o número de endividados no Brasil e garantir crédito para incentivar o consumo, o Governo Federal lançou o Desenrola 2.0, programa de desconto de dívidas, com limitação de juros e financiamento para abatimento de contas em atraso. A expectativa é que a medida traga impactos imediatos para a economia. Apesar disso, economistas pedem cautela sobre os benefícios, principalmente na análise de longo prazo.

Para a economista Tays Marina, a eficácia do programa depende muito mais do momento econômico do que propriamente da iniciativa. Ela afirma que o primeiro Desenrola não resolveu o endividamento.

“Foram renegociados R$ 53 bilhões em dívidas e, hoje, segundo dados do Banco Central, há mais de R$ 171 bilhões em valores com até 90 dias de atraso. Muito disso ocorreu por conta dos juros. A expectativa agora é renegociar R$ 58 bilhões, mas o resultado dependerá muito mais do cenário econômico e da mentalidade das pessoas”, explica.

O alerta feito por Tays chama atenção para outro ponto: desde o primeiro Desenrola, realizado em julho de 2023, o número de endividados subiu cerca de 9 milhões, atingindo aproximadamente 81,2 milhões de pessoas. Pernambuco aparece entre os estados mais endividados do Nordeste, com 50,28% da população adulta inadimplente.

Mesmo concordando que a medida não resolve de forma definitiva o cenário de endividamento, o economista Wagner Brito defende o Desenrola 2.0 como um alívio pontual, com foco emergencial para a população de renda mais baixa.

“É um programa muito audacioso. Em especial num momento de alta da taxa de juros, que fez os juros aplicados, como o rotativo do cartão de crédito, ser muito danoso para a renda da família brasileira. Vejo como um bom respiro, não como uma solução completa. É uma boa iniciativa para dar poder de compra para população mais carente”, defende Wagner.

Inflação e Juros Altos

Outro ponto de destaque é se o acesso ao crédito vai ou não impactar a inflação. A Região Metropolitana do Recife registrou a terceira maior inflação do país no acumulado de 12 meses até março de 2026, com alta de 4,58%, acima da média nacional de 4,14%. Os economistas ouvidos pela reportagem divergem sobre o impacto real das medidas de incentivo ao consumo.

“A população já sente mais os efeitos da inflação aqui no Nordeste, devido aos custos como alimento, combustível e aluguel, onde temos uma região com menor renda. Isso explica o porque a inadimplência cresce mais aqui e explica o porque liberar o crédito pode ser um remédio amargo, sem efeitos a longo prazo, como aconteceu no Desenrola 1”, acredita Tays.

Já Wagner Brito entende que a recomposição do poder de compra não necessariamente vai pressionar a inflação, já que a restrição de crédito vinha limitando o consumo nos últimos anos.

“É preciso observar que temos o processo inflacionário inicial, que é uma expectativa se vai ou não ter aumento, por condições como a questão do preço do petróleo como está acontecendo na guerra do Irã. Mas se vemos, de forma geral, que a população não está comprando tanto como em anos anteriores, percebemos que a condições de compra estão diminuindo exatamente pela questão de não ter crédito, e o Desenrola vem para resgatar esse poder de compra e rodar a economia, disse Wagner.

BETS

Em um país onde a maioria dos brasileiros (55%) admite entender pouco sobre educação financeira, segundo o Observatório Febraban, os gastos com jogos online, as chamadas bets, se tornaram mais um fator de pressão sobre a renda. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), cerca de 270 mil famílias estão em situação de inadimplência severa por conta de apostas virtuais.

Outro dado relevante mostra que os gastos com apostas ultrapassaram R$ 30 bilhões mensais até março de 2026, após três anos de acompanhamento.

Diante desse cenário, o Desenrola 2.0 prevê o bloqueio automático do CPF de quem aderir ao programa no acesso a plataformas de apostas durante 12 meses. A medida é vista como uma forma de educação financeira na prática e pode reduzir o impacto negativo sobre a renda das camadas mais vulneráveis.

Wagner avalia que parte da população mais vulnerável, especialmente beneficiários do CadÚnico, acaba destinando recursos às apostas como se fosse investimento. Para ele, o bloqueio atua justamente nesse ponto, interrompendo esse fluxo e ajudando a recompor o poder de compra de quem mais precisa.

FGTS

Um dos principais pontos do programa envolve o Ministério do Trabalho e Emprego: a possibilidade de uso de até 20% do saldo ou até R$ 1 mil (o que for maior) do FGTS para amortização ou quitação de dívidas em atraso.

A medida gerou preocupação no setor da construção civil. Em entrevista à CNN Brasil, o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, manifestou apreensão com a proposta.

Ele afirmou que qualquer saque que desvie o FGTS de sua finalidade principal, a habitação ou o amparo ao trabalhador em casos de demissão ou doença grave, gera preocupação no setor.
Para o presidente da CBIC, o déficit habitacional segue sendo um desafio no país, e o uso do fundo para quitar dívidas seria uma solução temporária, sem resolver o problema estrutural.

Sobre o tema, Tays avalia que a liberação do FGTS pode impactar o setor da construção civil, principalmente na ausência de planejamento por parte dos trabalhadores.

“Pode sim ter impacto (o uso do FGTS). O FGTS tem que ser usado como reserva de segurança para quando você tem uma demissão, quem quer fazer a compra de uma casa própria. Se você utiliza esse recurso sem o planejamento, você fica sem proteção financeira. O ideal é usar apenas o necessário para preservar esse saldo para o futuro”, defende.

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