Plataforma Qquant oferta serviços de revisão para artigos e outras funcionalidades.
Uma das fases mais importantes na pesquisa científica é a revisão sistemática de artigos. É a partir dela que o cientista vai reunir estudos semelhantes, avaliar metodologias e realizar análises estatísticas para dar fundamento à própria pesquisa.
O problema é que essa é uma etapa bastante custosa em relação a tempo e dedicação do pesquisador. Foi depois de ler 3 mil artigos e precisar categorizar todas as informações manualmente que o cientista da computação Randy Quindai teve a ideia de criar a Qquant.
A startup, criada em Alagoas, é uma plataforma de revisão sistemática que promete revisar vários resumos, de forma automatizada, em apenas 24 horas, ou até menos.
Segundo Quindai, que é também o atual CEO da empresa, a plataforma acelera um trabalho que levaria de oito meses a um ano e meio para ser realizado, fazendo toda a revisão em um dia.
“Quando você quer aprovar um medicamento, por exemplo uma nova maquiagem, um cosmético, é preciso fazer um estudo para ver se ele é realmente eficiente. Isso é chamado de revisão sistemática, e leva em média oito meses a um ano e meio. Então com a Qquant nós aceleramos esse estudo em um dia”, garante.
Os serviços da startup iniciaram em meados de 2018, mas apenas em 2020 a empresa foi formalizada. A ideia surgiu quando Randy precisou fazer revisão sistemática enquanto ainda estudava na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Na época, o CEO fazia pesquisa na área de dispositivos eletrônicos, mas após já ter publicado alguns artigos, quis mudar de campo. Ao comentar sobre isso, seu orientador deu a ideia de fazer uma revisão sistemática.
“Foi aí que eu senti a dificuldade, eu tive que ler 3 mil artigos, categorizar tudo manualmente. Eu descobri que existe uma empresa que faz isso, com profissionais já doutores que trabalham com isso [de forma manual], recebem por isso, e passam por esse sofrimento. E aí eu desenvolvi um framework inicial, que foi meu TCC, para acelerar o processo de categorização. Já no mestrado, eu desenvolvi toda a arquitetura para colocar em produção, que se transformou na Qquant, juntamente com o primeiro investimento que a gente conseguiu levantar do Programa Centelha”, explica.
Randy explica que o trabalho desenvolvido por outras empresas do segmento, geralmente, utiliza uma metodologia manual, com vários profissionais que são divididos em comunidades. E, mesmo com tentativas de automatização nessas empresas, o CEO da Qquant diz que não há foco na eficiência da análise de grande volume.
“Geralmente, é um processo que você vai trabalhando em cima dos artigos e a inteligência artificial vai aprendendo com você, vai te ajudando, dando dicas de um artigo que pode ser aceito ou rejeitado. Enquanto na nossa solução, você só define os critérios de seleção, aperta um botão, e a inteligência seleciona tudo para você, e te mostra ‘olha, dos critérios que você colocou, encontrei esses artigos, e esses outros são de acordo com os critérios que você não quer’, completa.
Como funciona
Inicialmente, a plataforma pede algumas informações para o usuário, que são processadas por uma tecnologia de Inteligência Artificial chamada Natural Language Processing (NLP, em português, Processamento de Linguagem Natural).
É a mesma presente em celulares e diversas plataformas atualmente, como o YouTube. A tecnologia é capaz de analisar os textos de forma inteligente, com a máquina interpretando textos escritos por humanos.
Após o processamento das informações, um relatório é enviado ao usuário. Para utilizar a plataforma, Randy diz que é preciso ter algum conhecimento em pesquisa científica, já que o foco da startup é o público especializado.
O relatório é estruturado para o uso de profissionais, contando com seções para cadastrar o estudo em plataformas especializadas, além de ter uma ferramenta que resume todo o conteúdo dos artigos.
“Se você colocar 3 mil artigos, a gente categoriza, separa, e mostra: ‘olha, esse conjunto de artigos fala sobre isso, esse outro fala sobre aquilo’. Também entregamos uma nuvem de palavras para você conseguir olhar o espectro todo sem precisar ler profundamente todos os arquivos. Então desde a iniciação científica até o especialista consegue usar”, completa.

Ainda de acordo com Randy, a plataforma lê os artigos sozinha, encontra e extrai os tópicos que constam neles, organizando as pesquisas em categorias com resumos, para que o usuário entenda do que se trata cada artigo em cada seção sem precisar ler um por um.
“Ela [a ferramenta] descobre tópicos pra você prestar atenção em um conjunto de informação que você desconhece, e até em informação que você conhece também ajuda. Pode ser que te mostre uma forma diferente de olhar para o mesmo problema. Então ele te ajuda a dar os próximos passos no teu trabalho como pesquisador”, ressalta o CEO.
Desafios da área científica
Para Randy, a maior parte da população brasileira não entende os benefícios diretos que a pesquisa científica traz para a sociedade, o que acaba afetando o mercado.
“Durante a pandemia, o Hospital Albert Einstein contratou empresas gigantes de fora para fazer esse trabalho que a gente aqui faz. Existe uma certa desconfiança na qualidade de pesquisa feita aqui no Brasil, mas isso é normal. Tudo o que tinha em ficção científica já existe, só não tem mercado ainda, não tá sendo comercializado em grande escala”, responde.
O CEO assegura que o grande desafio da Qquant não é idealizar a parte de Inteligência Artificial, mas sim reeducar as pessoas para que elas entendam que a pesquisa causa mudanças diretas na vida de cada um.
“Muita desconfiança, você tem que provar várias vezes que a coisa funciona, e o Brasil não tem essa cultura. Aqueles que têm poder de compra preferem comprar fora. Agora na pandemia nós conseguimos um contrato com uma universidade de fora, mas aqui no Brasil ainda não”, revela.
Modelo de negócio
Com um modelo de negócios de assinatura, a Qquant conta com três planos: gratuito, com o uso mais limitado; Standard (R$ 15,90/mês), que possui mais algumas funcionalidades; ou Colaborativo (R$ 39,90/mês), que é o mais completp.
Os primeiros 7 dias são gratuitos, e o usuário pode assinar, fazer seu trabalho e cancelar o plano quando quiser, sem a cobrança de multas.

Atualmente, a plataforma conta com 204 usuários, sendo 8 deles assinantes. A startup também participa de programas de aceleração e editais internacionais para estruturar o negócio, com o intuito de acelerar a solução proposta para alcançar mais usuários.
Randy revela os planos futuros da Qquant: “ser a primeira empresa brasileira a dar solução à vazão de análise de documentos científicos para aprovação de novos medicamentos no mercado nacional”, já que grandes instituições do Brasil, como o Hospital Albert Einstein, acabam contratando empresas do exterior para realizar esse serviço.
A ferramenta está disponível no site da Qquant, e pode ser acessado também por smartphones.