Bebida é feita artesanalmente em Palmeira dos Índios desde os anos 70.
Localizada no agreste alagoano e com pouco mais de 70 mil habitantes, a cidade de Palmeira dos Índios vem ganhando destaque pela sua própria fabricação de vinho. Mas não trata-se da tradicional bebida derivada da uva, e sim da jabuticaba.
A responsável por produzir essa iguaria, que tem se tornado famosa para além do estado de Alagoas, é a Coopcam, uma cooperativa mista de produção e comercialização camponesa, na qual pequenos agricultores cultivam diversos outros alimentos para consumo e venda.
“Os cooperados produzem de tudo porque são agricultores familiares, então nos nossos quintais e nas nossas roças você vai encontrar uma diversidade de frutas, sementes, raízes, pequenos animais, dentre outros” explica José Hélio, presidente da Coopcam.
Dentre essas frutas se destaca a jabuticaba. É a partir dela que a cooperativa fabrica produtos como o vinho seco e suave, a geleia premium e a geleia de flores e frutas vermelhas da serra. E a lista de itens não para por aí.
“Nós estamos no processo de lançar mais dez produtos, a maior parte com base de jabuticaba. Estamos na fase de organizar as receitas para lançar esses produtos”, diz Hélio, explicando sobre a versatilidade da fruta nativa da Mata Atlântica.


Mas é mesmo o vinho de jabuticaba que chama a atenção das entidades apoiadoras da cooperativa, dos visitantes e até mesmo da mídia regional.
A história do vinho de jabuticaba em Alagoas
Segundo Hélio, os registros indicam que a bebida alcoólica da jabuticaba é tradição entre as comunidades da serra de Alagoas há mais de 50 anos. Apesar disso, ela não era comercializada, mas sim oferecida como um presente entre os camponeses.
“Desde a década de 70, ele [o vinho] é fabricado pelas famílias. Era uma bebida feita quando nascia uma criança, outras famílias iam visitar e davam de presente esse vinho para o casal. Nas novenas e festas de santo também se oferecia o vinho”, conta.
Mas foi somente nos últimos cinco anos que os agricultores e cooperados passaram a divulgar e vender o vinho de jabuticaba como um produto artesanal da região.
“As vendas começaram assim, nas viagens que a gente fazia para eventos, levávamos algumas garrafas e vendíamos. Foi caindo no gosto da população e hoje nós temos uma experiência de produção que chegou a 1200 litros”, afirma o presidente da cooperativa.
Hélio destaca ainda que neste ano já foram produzidos 1080 litros do vinho, utilizando a safra de janeiro e fevereiro, e é possível que ainda tenha mais uma safra da jabuticaba em 2022, no período de agosto a setembro, aumentando o saldo de fabricação da bebida.
Fabricado artesanalmente
A fabricação do vinho é feita basicamente de forma manual, sem uso de maquinário. O presidente comenta que o processo é coletivo entre os cooperados e pessoas que se interessam em conhecer a experiência e se dispõem a colaborar.
“A gente colhe a jabuticaba [na horta] das famílias, leva para a nossa agroindústria, onde é feito todo o processo de seleção e de limpeza. Depois disso é feito o processo de esmagação da jabuticaba e é colocada para fermentação”, explica.



A primeira fermentação é feita ainda com a casca da jabuticaba. Depois é separada a casca do mosto, que é a parte líquida, e essa parte líquida é colocada para a segunda fermentação. E aí começam os testes de prova para saber se o vinho está bom.
O processo de fermentação dura três meses, após isso ele é engarrafado e comercializado.
Beneficiados e consumidores da Coopcam
Atualmente, Hélio aponta que a Coopcam tem de 250 a 300 pessoas sendo beneficiadas com o cultivo e produção artesanal de alimentos. Além de Palmeira dos índios, a cooperativa trabalha também em municípios como Estrela, Igaci, Cacimbinhas e outros.
Por outro lado, em torno de 600 a 700 pessoas consomem os produtos da cooperativa, seja comprando diretamente com os produtores nas comunidades ou frequentando as feiras e o Espaço do Camponês, local próprio para venda dos itens fabricados pela Coopcam.
Para quem quiser conhecer e adquirir os produtos, como o vinho de jabuticaba, o presidente da cooperativa assegura que, além do Espaço do Camponês, não faltam opções de feiras e locais para encontrar seus alimentos artesanais.
“Nós temos a Feira Camponesa da Serra, que acontece a cada 15 dias em Palmeira dos índios. Também participamos da Feira Sustentável em Maceió, que acontece no Corredor Vera Arruda — normalmente aos domingos — e onde mais houver oportunidade para comercializar nossos produtos”, enfatiza.

Participante do Alagoas Maior, programa do Governo de incentivo a pequenos produtores do estado, a Coopcam também deverá começar a utilizar a plataforma de catálogo e vendas online disponibilizada pelo programa.
“A gente ainda está em organização interna para lançar nossos produtos na plataforma. Mas é uma realidade e em breve vamos estar vendendo também online. Acredito que vai ser uma evolução muito significativa para nós”, demonstra Hélio.
Fomento do programa Alagoas Maior
Além da plataforma online, o programa também oferece consultorias em parceria com o Sebrae Alagoas, a fim de capacitar os produtores e empreendedores e qualificar suas produções.
Para a Coopcam, a primeira ação realizada foi o Circuito da Jabuticaba, em março de 2020. O evento atraiu os olhares da mídia local e até mesmo de veículos de cobertura regional e nacional, dando visibilidade para a mercadoria produzida pela organização.
“Assim, abriu possibilidades para articular uma rede de apoiadores e instituições que se interessem pelo nosso processo de organização e produção. Por exemplo, a Embrapa e universidades como Ufal, Uneal e Ifal que nos apoiam”, menciona Hélio.
“Depois do circuito vieram as consultorias que possibilitaram a melhoria na qualidade dos produtos. Os vinhos, as geleias e os doces, a partir das consultorias, tiveram adequações técnicas o que possibilitou o preparo para colocar os produtos no mercado”, conta.
O presidente da cooperativa explica que as consultorias foram de fundamental importância para que fosse possível ter um produto pronto com qualidade, na embalagem certa, com rótulo com informações nutricionais e todas as demais necessidades comerciais.
Com isso, Hélio afirma que as vendas aumentaram significativamente e a cooperativa recebe pessoas de toda Alagoas, além de grupos de outros estados, como Pernambuco, Sergipe e outras regiões do país, à procura dos produtos, em especial do vinho de jabuticaba.
Melhorias e próximas missões
Com o Alagoas Maior, a Coopcam tem focado agora na proposta de estrutura, que visa adequar o espaço de produção, para que os itens continuem sendo fabricados de maneira artesanal, mas com cada vez mais qualidade.
“Foi perfurado um poço artesiano aqui na agroindústria, recebemos mesas de inox para produção de doces e tem outras coisas em discussão como a construção de um espaço próprio para a produção do vinho”, conta o presidente da cooperativa.
Fora isso, a próxima missão técnica da organização será realizada agora no mês de abril, em Hidrolândia, em Goiás, para um encontro com um grupo local que também trabalha com produtos de jabuticaba.
“Acho que vai abrir a possibilidade de nos articularmos em rede, porque ainda não existe uma legislação para a produção de vinho e outros alimentos a partir da jabuticaba. Então a gente pretende se somar nessa luta por uma legislação própria”, explica.
Atualmente, os parâmetros da legislação brasileira estabelecem uma acidez para a bebida fermentada de jabuticaba muito semelhante à do vinho de uva. Entretanto, a fruta da jabuticabeira é naturalmente mais ácida que a uva.
Por esse motivo, o vinho de jabuticaba acaba enfrentando dificuldades no processo de padronização da fabricação, especialmente no que diz respeito à fermentação, limitando as possibilidades de comercialização do produto para outras empresas e para exportações, por exemplo.