Kevyn Nicolas foi medalhista de Bronze na categoria Individual e de Ouro na Equipe, modalidade Poomsae.
No último dia 30, o alagoano Kevyn Nicolas Ribeiro foi multi-campeão no Campeonato Olímpico Mundial de Taekwondo 2024, competição sediada em Muju-Gun, na Coreia do Sul. O local é berço de preservação da cultura de Taekwondo e referência na transmissão do esporte como curso superior.
A premiação é referente à faixa-preta, na modalidade Poomsae, categoria Sênior I (intervalo entre 20 e 29 anos de idade). Kevyn, que é de Arapiraca, conquistou a medalha de bronze no individual e a medalha de ouro na equipe, junto dos colegas Paulo Lacheski e Vitor Mendonça, naturais de Atibaia-SP.
Desde então, ele e a equipe continuam em Muju-Gun para ampliar os conhecimentos na arte marcial, enquanto adaptam-se aos costumes e fuso horário de 12 horas de diferença.
Este campeonato foi a primeira experiência de Kevyn em uma competição de dimensão internacional, e o atleta é um caso extraordinário: mesmo não sendo faixa-preta, ele conseguiu a permissão para competir nessa faixa.
O que antecede o pódio é uma trajetória de preparação e esforço, que durou um mês inteiro e passou por diferentes estados do Brasil.
Dos filmes ao tatame
Além de praticante de Taekwondo, Kevyn Nicolas Robeiro é estudante de Direito e, atualmente, trabalha em um escritório de advocacia. Nascido e criado em Arapiraca, o primeiro contato com o Taekwondo foi graças à locadora de vídeos dos avós Maria de Lurdes e Léo Lins de Matias, no Centro da cidade.
“Minha paixão e interesse pelo esporte surgiu por que eu assistia filmes com praticantes de artes marciais das mais variadas”, Kevyn conta. Dentre os atores mais queridos, estão os clássicos Bruce Lee, Jean-Claude Van Damme, Jet Li e Jackie Chan.
Hoje, a locadora virou a loja de eletrônicos Top Vídeo, uma das principais apoiadoras e patrocinadoras do medalhista.
Kevyn conta que, por um ano, precisou parar todas as atividades físicas que praticava graças a um diagnóstico de arritmia cardíaca.
O atleta havia começado a praticar Taekwondo em 2014, e chegou a realizar um exame de faixa, mas só voltaria a praticar artes marciais novamente em 2022, após uma bateria de exames que constatou as condições favoráveis na saúde.
A vontade de lutar Taekwondo voltou, coincidentemente, com a inauguração da academia TOP FIGHT, administrada pelo mestre Jeanderson Cardoso, heptacampeão alagoano na modalidade Kyorugui.
Em março do mesmo ano, Kevyn foi o primeiro aluno matriculado do professor e, ainda em junho, já competia nas modalidades Kyorugui e Poomsae.

Modalidades do Taekwondo
Segundo Kevyn, diferentemente do Kyorugui (luta), a modalidade Poomsae é mais demonstrativa, com duração entre 1 e 3 minutos. Nos treinos, ela requer mais flexibilidade e concentração, enquanto Kyorugui é mais explosivo e tem mais chances de lesões.
Um mesmo atleta pode treinar ambas as modalidades, como o próprio Kevyn já fez, mas é difícil dar o melhor de si com treinamentos tão diferentes, segundo ele.
Após perceber isso, ele decidiu focar no Poomsae, mas o caminho até o ouro não foi fácil. Mesmo já tendo conquistado o primeiro lugar na modalidade em competições que participou, durante a Copa América de Taekwondo 2022 ele amargou um terceiro lugar.
O episódio revelou que as técnicas que o atleta havia aprendido não acompanhavam a tendência nacional nos movimentos, o que, segundo ele, pesou na sua avaliação no campeonato.
Depois disso, o alagoano decidiu aprimorar ainda mais o conhecimento em Taekwondo, com uma rotina de treinos administrada por ele mesmo. Uma vez ou duas vezes por dia, Kevyn exercita movimentos de memorização para não perder a prática. “Como uma dança”, ele compara.
Eventualmente, Kevyn foi medalhista de Ouro na Copa América e não deixou de participar de competições. Desde então, já são 25 medalhas conquistadas (14 Ouro, 6 Prata e 5 Bronze).
A trajetória do campeonato
Quem vê a vitória dos atletas hoje, não imagina que toda a trajetória até ela começou um ano antes. Pode-se dizer que 2023 foi o ano que direcionou Kevyn para a sua equipe, pré-requisito para participar do Campeonato Olímpico, e impactou os acontecimentos até a viagem à Coreia do Sul.
No ano passado, a World Olympics Taekwondo Federation (WOTF) selecionou atletas para o World Olympic Taekwondo Championship 2024. A princípio, Kevyn não foi classificado, porque mesmo sendo vitorioso, ainda não era faixa-preta.

Entretanto, Kevyn foi reavaliado em um caso extraordinário. Dentre muitos motivos, o histórico vitorioso e a afinidade com as redes sociais foram considerados na decisão e sua vaga foi garantida para competir em Muju-Gun, na Coreia do Sul.
O atleta conta também que as federações não pagam pelas passagens dos atletas classificados, o que dificulta a participação mais ampla do Brasil em campeonatos no exterior.
Em julho de 2023, em um campeonato organizado pela Liga Nacional de Taekwondo (LNT) em Campinas-SP, Kevyn Nicolas conheceu os atuais colegas de equipe: Paulo Lacheski e Vitor Mendonça.
“Paulinho e Vitinho”, como são chamados por Kevyn, praticam Taekwondo há mais de dez anos, e são medalhistas admirados na modalidade Kyorugui. Mas, para competirem em time em Poomsae, os atletas precisavam mudar de treinamento, o que não é fácil.

“Na modalidade deles [Kyorugui], eles são invictos, não tem o que falar. Mas, na minha [Poomsae], eles ‘quebraram um galho’. O atleta não desempenha o melhor dele quando pratica as duas em competição, porque o treinamento para cada modalidade é diferente, mas eles dois, por terem muita habilidade e paciência, conseguiram se readaptar à modalidade de última hora para a gente conquistar o Ouro”, conta.
Cerca de um mês antes de embarcar para a Coreia do Sul, Kevyn realizou outra viagem tão intensa quanto: saiu de Alagoas, e abdicou temporariamente do emprego, do salário e do curso superior para atualizar seus movimentos no Taekwondo, considerados ultrapassados às tendências nacionais.
“Eu tive que sair do estado [de Alagoas] para aprender com pessoas que sabiam mais do que eu, pessoas que sabiam mais do que seus próprios mestres. Eu tive que sofrer levando ‘marteladas’ e não desisti”, relembra Kevyn.
Dentre os destinos, passou por Vila Mariana, Atibaia e Campinas, no estado de São Paulo, e Belo Horizonte, em Minas Gerais.
Treinou em diferentes institutos, como o Instituto Mestre Cho, mas principalmente com diferentes atletas. Dentre estes, vale destacar os competidores de Taekwondo dos Jogos Pan Americanos no México, e a campeã mundial Sarah Honório.
“Além disso, ainda tem a pressão psicológica e a dor física diária que você sente por estar treinando”, Kevyn reforça.
Da viagem de preparação até o Campeonato Olímpico Mundial de Taekwondo 2024, Kevyn relembra o apoio fundamental que recebeu da equipe e dos fãs nas redes sociais.
A trajetória desta vitória só pode ser definida pelo medalhista: “Para uma pessoa que deseja atingir grau de sucesso em qualquer coisa que ela vá fazer, ela tem que se desatrelar das coisas comuns do dia a dia, que todas as outras fazem, e passar a fazer coisas extraordinárias”.
Futuro no Taekwondo
A previsão de estadia de Kevyn Nicolas e sua equipe em Muju-Gun, Coreia do Sul, segue até quinta-feira (11). Apesar das dificuldades de adaptação ao paladar coreano e ao fuso horário, os cursos de capacitação que tem feito no país são uma oportunidade única para o atleta que possui grandes planos de crescimento.
“Esses cursos são necessários porque, quando eu voltar para Alagoas, eu sonho em implementar projetos sociais e mudar a vida das pessoas. De crianças até idosos, projetos de base para melhorar a saúde”, ele conta.

“Fazer esses cursos aqui me dá um currículo diferencial, para que quando eu faça essas propostas diante dos gestores municipais e dos políticos locais, eles avaliem a situação e vejam que, de fato, existe a possibilidade desses meus planos darem certo”.
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É Sempre gratificante ver um representante de Alagoas chegar ao mais alto do pódio em uma modalidade de esporte tão específica. Parabéns para o atleta. Quero parabenizar também o trabalho jornalístico feito para essa reportagem. Obrigado a todos do jornal Mercatus.